Fonte: Tarso Araujo. Superinteressante, edição especial "A Revolução da Maconha: o mundo começou a ver a planta de outro jeito. Entenda por quê.", 2014. Artigo "Tarja Verde: cada vez mais pesquisas confirmam a utilidade da maconha para o tratamento de uma grande variedade de doenças. Apesar de a lei brasileira prever o uso medicinal, a falta de regulamentação impede sua aplicação no Brasil."
Tenho esclerose múltipla, uma doença sem cura e progressiva. Tudo o que a medicina sabe, atualmente, é prolongar o tempo de vida de quem tem essa enfermidade. Eu estou no grau 4 da doença, de uma escala que vai até 10, quando o paciente está morto. Os médicos não chegam a falar em morte comigo, mas consideram que mais cedo ou mais tarde eu fique acamado. Quando recebi o diagnóstico, me disseram que isso aconteceria em dez anos, no máximo. Mas isso já faz 15 anos e sigo bem. Para os médicos, eu sou "ganhador da Sena". Para mim, se estou assim, é por causa da maconha.
Comecei a usar pouco depois de descobrir a doença, em 1999. Em uma consulta, depois de relatar o que sentia, o médico virou pra mim em voz baixa e disse: "Se você fumar um 'baseadinho' vai ajudar". Desde então, faço o que se faz em vários lugares do mundo, mas é proibido no Brasil. E não sou o único: conheço muita gente que também recebeu a recomendação dos médicos para fazê-lo, "por baixo dos panos", claro.
Os sintomas mais comuns que sinto são dormência, choques, sensação de quente-frio, cansaço e formigamento. Tudo isso melhora quando uso maconha. Os choques e espasmos praticamente desaparecem e as dores caem pela metade. Nas duas vezes em que passei períodos prolongados sem maconha, os sintomas progrediram rapidamente. Parece que a cannabis foi feita para a esclerose múltipla. É impressionante: assim que você fuma, a paz volta. Tem muito paciente de esclerose múltipla que não sabe disso e está na cama, desesperado, sem saber o que fazer. Fico pensando: a maconha é só uma planta. Não pode ter uma planta em casa?
-- Gilberto Castro, 40, designer. São Paulo (SP).